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IMAGEM: Rubens Chaves/Folhapress

 

Defensores da obra agora reivindicam PPP; governo estadual ainda tenta ponte e também propõe novo corredor logístico

Nos últimos dois anos, a proposta de fazer uma ligação rodoviária entre os municípios de Santos e Guarujá, no litoral paulista, ficou travada numa polêmica sobre qual seria o melhor trajeto: uma ponte ou um túnel submerso. Na semana passada, a proposta do túnel avançou.

Autoridade portuária de Santos abriu chamamento público para receber estudos sobre o traçado do túnel. O processo pode durar até quatro meses.

Entre os defensores dessa opção, agora há uma discussão sobre qual seria o melhor modelo para viabilizar o projeto.

 

O movimento “Vou de Túnel”, encabeçado por um pool de engenheiros navais, empresas e associações, defende a adoção de uma PPP, parceria público privada. Para o grupo, a obra poderia ser iniciada ainda em 2021 se fosse entregue à iniciativa privada.

A autoridade portuária, porém, trabalha com a perspectiva de incluir o túnel dentro do processo de privatização do porto, o que daria preferência para uma concessão patrocinada, modelo em que os responsáveis pelos investimentos receberiam uma contraprestação para viabilizar o projeto. Estudos apontam que o leilão pode ocorrer em 2022.

“O plano A é que o projeto seja um investimento obrigatório do concessionário privado do porto, mas o processo pode ser desenvolvido separadamente se os estudos demonstrarem que há viabilidade técnica e econômica”, cita Bruno Stupello, diretor de desenvolvimento de negócios e regulação da SPA (Santos Port Authority, sigla em inglês utilizada para definir a autoridade portuária).

“Por que empurrar para uma privatização? Ela pode nem sair. O plano A, agora, precisa ser uma PPP (parceria-público privada)”, diz Casemiro Tércio Carvalho, um entusiasta do túnel, ex-presidente da SPA.

Em paralelo, o governo do estado de São Paulo, defensor da ponte, ainda tenta viabilizar o trajeto sobre o mar. O argumento é que ponte e túnel podem conviver e atenderiam diferentes necessidades portuárias.

“Torcemos para que tenham uma equação financeira que possa se sustentar o projeto [de túnel], ambos possam acontecer. Mas o nosso foco é a ponte, e entregamos o projeto alterado e pronto”, diz o secretário de logística e transportes do estado de São Paulo, João Octaviano Machado.

Entre as modificações para a que a ponte seja executada destaca-se a alteração de um vão principal de 750 metros, com altura de 85 metros a partir do nível do mar, que, segundo o estudo, elimina qualquer possibilidade de interferência operacional no porto.

A estrutura da ponte, estimada em R$ 3,9 bilhões, seria erguida pela concessionária Ecorodovias, responsável pelo sistema Anchieta-Imigrantes, em troca da extensão do contrato para exploração dos serviços, que inicialmente vence em 2026, por mais 30 anos.

Em 19 novembro, a secretaria de transporte e logística do estado entregou ao Ministério da Infraestrutura a reformulação do projeto da ponte para minimizar os riscos de impacto no porto.

Em nota, na ocasião, disse que com as adequações “a obra está pronta para ser iniciada, dependendo do aval do Ministério da Infraestrutura”. Quase seis meses depois, o estado reclama de ter ficado “no vácuo”.

A percepção de quem acompanha a discussão é que o componente político ganhou mais peso, uma vez que cresceram as rivalidades entre o governador João Doria (PSDB) e o presidente Jair Bosonaro (sem partido) durante a pandemia.

“Nos causa estranheza [a demora na resposta]. Se não querem, é só falar, mas precisam explicar por que não querem, também. Fizeram uma solicitação de mudança do local de pilares e cumprimos. Já vai para seis meses e só ouvimos, até agora, que está em análise”, diz Machado.

Enquanto isso, cresceu o apoio ao túnel. No último dia 19 de fevereiro, em visita ao porto, o presidente da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), Paulo Skaf, um aliado do presidente Bolsonaro, reforçou o discurso em favor do túnel.

“Estudos mostram que a opção do túnel seria mais vantajosa por uma série de razões, inclusive razões técnicas, além de investimentos e resultados. Por essa razão, ao nosso ver, seria mais interessante a solução através de um túnel e não de uma ponte para a ligação seca", afirmou.

Os defensores do túnel, que custaria aproximadamente R$ 3 bilhões, também reforçaram as suas críticas. Em 1º de abril, popularmente conhecido como dia da mentira, os responsáveis pelo “Vou de Túnel” publicaram no Twitter uma mensagem desqualificando a ponte.

“Hoje, a gente até dá um desconto porque é primeiro de abril. O problema é que te contam essa mentira o ano todo!”, afirmou a publicação. “O projeto da ponte impede o desenvolvimento do porto e não beneficia em nada as cidades de Santos e Guarujá. Por que alguém iria querer tirar isso do papel?”

 O grupo "Vou de túnel" diz ainda que o trajeto submerso sofreu adequações que tendem a reduzir o valor do investimento. Foi reduzido, por exemplo, o número de desapropriações. “Hoje, evoluímos muito em relação ao primeiro projeto da Dersa [de 2014], que era bom, mas que tinha o grave defeito englobar a entrada da cidade”, diz Eduardo Lustoza, diretor de portos da Associação de Engenheiros e Arquitetos de Santos.

Na avaliação dele, a insistir na ponte perdeu o sentido. “O chamamento da autoridade portuária já uma clara ação de que estão decidindo pelo túnel, que não aceitam outra opção", diz Lustoza. "Os estados que precisam do porto não podem ficar a mercê de uma visão míope do governo estadual, nem de algum interesse particular,”

Procurado, o Ministério de Infraestrutura informou que concorda com o pleito de uma ligação seca entra as duas margens e que defende “uma solução que atenda às demandas da sociedade e não impeça as operações portuárias atuais e futuras”.

Ainda segundo a pasta, no fim de 2020, houve reunião com representantes da secretaria estadual de transportes e logística, da SPA e da Ecovias para discutir alterações no projeto de solução da ponte e que o projeto é avaliado juntamente com a alternativa do túnel “para a definição da solução mais adequada” tanto com relação a custo e prazo, seja envolvendo a desestatização do Porto ou outro formato.

A BTP (Brasil Terminais Portuários), um dos principais operadores do porto, também voltou a manifestar apoio ao projeto do túnel. “Além de ser a obra mais viável economicamente, o projeto do túnel descarta a criação de uma barreira física no canal de navegação”, disse o presidente Ricardo Arten.

A ABTP (Associação Brasileira de Terminais Portuários) diz que ainda aguarda pela definição dos projetos para se posicionar. “A aposição, hoje, é clara: vamos aguardar. Se algum deles impactar, vamos ser contrários”, explica o diretor-presidente Jesualdo Conceição.

LINHA-VERDE TEM CONSENSO

Se há claras divergências entre ponte e túnel, há consenso com relação a outro projeto, chamado de linha-verde. Anunciada no último mês, a proposta do governo estadual é aliviar o sistema Anchieta-Imigrantes com a criação de uma nova rota logística entre Santos e São Paulo.

O chamamento público para a entrega de projetos da iniciativa privada foi aberto em 25 de março. As propostas podem contemplar alternativas com diferentes modais, mesclando rodovia e ferrovia, com conclusão em prazos de seis a oito anos.

“É uma alternativa. Já nasceria com uma concessão, mas ainda sem estimativa de valores e de trajeto. Acreditamos que vai ter um forte impacto no transporte, resolvendo problemas hoje crônicos”, afirma Octaviano.

Ainda não há definição de um traçado, mas a projeção é de que a ligação faça a conexão do rodoanel, na capital, com a margem esquerda do porto.

O período para a apresentação de projetos ou estudos vai até o próximo dia 30, contendo a viabilidade técnica e, também, econômica. Para abrigar a alça ferroviária, seria preciso a construção de túneis maiores.

Detalhe. O projeto não tem ligação com a ponte entre Santos e Guarujá.

FONTE: FOLHA DE S.PAULO

 (Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado)

Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado

 

Decisão amplia escopo das investigações, mas não poderá atingir competências de assembleias legislativas e câmaras municipais

O presidente do Senado Federal, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), oficializou, nesta terça-feira (13), a criação da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid na casa legislativa.

A partir da união de dois requerimentos apresentados pelos parlamentares, foi criado um único colegiado que, além de apurar ações e omissões do governo federal no enfrentamento à pandemia do novo coronavírus, poderá tratar de fatos conexos a estados e municípios que receberam recursos federais durante a crise sanitária.

Um primeiro pedido, apresentado pelo senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), pedia apuração apenas da atuação do governo federal na pandemia. No entanto, o senador Eduardo Girão (Podemos-CE) posteriormente solicitou que a investigação também tratasse de como Estados e municípios aplicaram recursos no combate à pandemia.

O movimento ocorre cinco dias após o ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal (STF) determinar a instalação da CPI, atendendo a pedido feito pelos senadores Alessandro Vieira (Cidadania-SE) e Jorge Kajuru (Cidadania-GO), e representa uma mitigação de danos ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido), já que o pedido inicial não tratava de gestões estaduais e municipais.

Pela decisão de Pacheco, contudo, a atuação da CPI da Covid fica limitada e não poderá invadir a competência das Assembleias Legislativas e Câmaras Municipais. A investigação sobre fatos relacionados diretamente às unidades da federação não é permitida pelo regimento interno do Senado Federal. Por isso, houve a limitação aos repasses a governos e prefeituras.

“A comissão terá como objeto o constante do requerimento do senador Randolfe Rodrigues, acrescido do objeto do requerimento do senador Eduardo Girão, limitado apenas quanto à fiscalização dos recursos da União repassados aos demais entes federados para as ações de prevenção e combate à pandemia da Covid-19, e excluindo as matérias de competência constitucional atribuídas aos Estados, Distrito Federal e Municípios”, disse Pacheco.

Após a leitura do requerimento, abre-se prazo de dez dias aos líderes partidários para a indicação dos membros da comissão – que será formada por 11 titulares e sete suplentes.

Na prática, contudo, tal indicação não representa garantia de que a CPI será instalada. Há ainda esforços de parlamentares governistas em condicionar o funcionamento prático do colegiado ao retorno aos trabalhos presenciais no Senado Federal – o que ainda não tem previsão para acontecer.

“Tem que ter condições sanitárias adequadas e servidores vacinados, senadores vacinados e repórteres vacinados. Tem que ter um ambiente seguro. Não vejo o que pode garantir isso agora a não ser vacina. Tem uma questão de ordem minha que já está no sistema”, argumentou o senador Eduardo Gomes (MDB-TO), líder do governo no Congresso Nacional, em questão de ordem.

Já o senador José Serra (PSDB-SP) divulgou nota técnica argumentando que a CPI pode funcionar de forma remota.

“Em CPIs não há contraditório ou ampla defesa. É um procedimento inquisitivo e a regra é a publicidade. Em caso de necessidade de oitivas secretas, a tecnologia permite o acesso restrito a parlamentares e a assessores designados”, diz o texto.

Eis a composição do colegiado:

  • Bloco Unidos pelo Brasil (MDB, Progressistas e Republicanos): 3 titulares e 2 suplentes ;
  • Bloco Podemos, PSDB e PSL: 2 titulares e 1 suplente;

  • PSD: 2 titulares e 1 suplente;

  • Bloco Vanguarda (DEM, PL e PSC): 2 titulares e 1 suplente;

  • Bloco da Resistência Democrática (PT e Pos): 1 titular e 1 suplente;

  • Bloco Senado Independente (PDT, Cidadania, Rede e PSB): 1 titular e 1 suplente

 

FONTE: INFOMONEY

Ilustração de mapa-múndi com fios vermelhos ligando cidades e países

GETTY IMAGES

 

Se a pandemia de Covid-19 não abrandar em 2021 e continuar matando milhões, não será porque na eterna guerra entre os patógenos e a humanidade a natureza irrefreável triunfa. “Será um fracasso humano e, mais precisamente, um fracasso político”, alertou Yuval Noah Harari, historiador e filósofo israelense, autor de Sapiens: de animais a deuses.

A reportagem é publicada por Infobae, 27-02-2021. A tradução é do Cepat.

A um ano da crise de coronavírus, avaliou que uma vez que hoje existem “o conhecimento e as ferramentas necessárias para prevenir que um novo patógeno se espalhe e cause uma pandemia”, caso vidas continuem sendo perdidas e a economia destruída, ou o SARS-CoV-2 se torne o início de uma onda de novas epidemias, seria apenas uma demonstração do despenhadeiro político. Porque a ciência está presente, diferente do que aconteceu com a peste negra e mesmo com a gripe de 1918. E hoje, inclusive, os humanos possuem um mundo virtual onde se refugiar do patógeno.

Então, se alguma coisa falhar, não existirá outro responsável a não ser a própria humanidade.

Em um artigo para o Financial Times, o best-seller de Homo Deus. Uma breve história do amanhã e 21 lições para o século XXI, resumiu, com uma perspectiva histórica ampla, o primeiro ano da Covid-19 e observou uma enorme diferença em comparação ao passado: “2020 mostrou que a humanidade está longe de ser indefesa. As epidemias já não são forças incontroláveis da natureza. A ciência as tornou um desafio administrável”.

Então, por que mais de 2,5 milhões de mortos no mundo? Por que economias inteiras em colapso e até países fechados? “Pelas más decisões políticas”, escreveu Harari, sem rodeios.

Durante a primeira onda da peste negra, quando morreu um terço da população da Inglaterra, ninguém pensou que Eduardo III a deveria ter impedido, porque os humanos não faziam ideia do que causava a doença, nem como poderia ser detida. Era uma calamidade natural, talvez a ira de deus, mas certamente não estava nas mãos de um monarca. Durante a gripe de 1918, mesmo com os avanços da ciência, as mentes mais brilhantes do mundo não puderam identificar o vírus e, portanto, muitas das medidas que foram tomadas não serviram e não teve como encontrar uma vacina, pois era buscada às apalpadelas.

Desta vez, ao contrário, a experiência foi radicalmente diferente.

“Os primeiros alarmes sobre uma potencial nova epidemia começaram a soar em fins de dezembro de 2019. No dia 10 de janeiro de 2020, os cientistas não só haviam isolado o vírus responsável, como também conseguido a sequência de seu genoma e publicado a informação online”, recordou Harari a respeito da cronologia do SARS-CoV-2. “Em poucos meses, ficou claro quais medidas podem atrasar e deter as cadeias de infecção. Em menos de um ano, houve produção em massa de várias vacinas eficazes. Na guerra entre os humanos e os patógenos, nunca os humanos tinham sido tão poderosos”.

2020 não foi um desastre: tudo isto deu certo

Além da biotecnologia, muitos outros progressos permitiram que as sociedades não entrassem em colapso, como em um apocalipse, ou caíssem na fome. Em primeiro plano, destacou Harari, estão as tecnologias da informação.

Em 1918, era possível colocar em quarentena todos os que mostravam sintomas, mas não era possível rastrear os pré-sintomáticos, nem os assintomáticos, o que contribuiu para minar o êxito do isolamento, e a gripe continuou progredindo. “Ao contrário, em 2020, a vigilância digital facilitou muito o acompanhamento e a localização dos vetores da doença, razão pela qual a quarentena pôde ser mais seletiva e eficaz”, argumentou.

O mais importante da contribuição tecnológica foi que a internet permitiu – ao menos nos países desenvolvidos – um confinamento prolongado, sem que o mundo material e o mundo virtual entrassem em colapso.

Se durante milênios a produção agrícola dependeu das mãos humanas, hoje, apenas 1,5% da população dos Estados Unidos trabalha no campo, comparou Harari. Com isso, alimenta-se os 331 milhões de habitantes e também se exporta alimentos. A razão é tecnológica: “Quase todo o trabalho agrícola é feito por máquinas, que são imunes às doenças. Por conseguinte, o confinamento teve apenas um pequeno impacto na agricultura”.

Algo similar acontece com o transporte, tanto de alimentos como de outros bens. Se a peste negra passou por meio da rota da seda da Ásia para o Oriente Médio e daí, em barcos, para a Europa, foi pela necessidade de mão de obra humana nesses projetos. Ao contrário, o comércio mundial em 2020 funcionou mais ou menos constante porque poucos homens trabalham nele.

Houve a crise do papel higiênico nos Estados Unidos? As pessoas, então, compraram online e seu papéis chegaram em caixas com formulários postais da China, produzidos, empacotados e transportados por máquinas.

No século XVI, toda a frota mercante da Inglaterra podia transportar 68.000 toneladas de bens, com 16.000 tripulantes. Hoje, apenas um navio de Hong Kong pode levar quase 200.000 toneladas, com uma equipe de 22 pessoas. A única indústria de transporte que entrou em colapso foi a que se ocupa do movimento de humanos: a aviação comercial e o turismo. O volume de comércio marítimo global perdeu apenas 4%, ilustrou Harari.

Por acaso, um advogado se apresentou com um filtro de gatinho em uma audiência virtual diante dos tribunais, houve inconvenientes como esse, reconheceu o pensador, mas a justiça continuou sendo gerida.

A humanidade foi para o mundo virtual, porque o mundo material era inabitável até o controle do vírus letal, e muito da vida continuou de maneira digital. E a internet não entrou em colapso, diferente do que teria acontecido se, de repente, o trânsito sobre uma ponte física se multiplicasse monstruosamente. Na trincheira, ficaram médicos e enfermeiros, trabalhadores essenciais do comércio varejista e da segurança, e os entregadores que se tornaram a “fina linha vermelha que manteve viva a civilização”, conforme Harari os qualificou.

Por que as políticas públicas foram tão ineficazes?

Contudo, o ano da Covid-19 expôs uma limitação do poder científico e tecnológico: nenhum tem o alcance para substituir a política. “Na hora de decidir uma política pública, temos que levar em conta muitos interesses e valores, e dado que não há uma forma científica de determinar quais interesses e valores são mais importantes, não há uma forma científica de decidir o que deveríamos fazer”, expôs o artigo.

“Por exemplo, ao decidir se se impõe um confinamento, não basta perguntar: ‘Quantas pessoas ficarão doentes de Covid-19, se não impormos o confinamento?’. Também deveríamos perguntar: ‘Quantas pessoas sofrerão depressão, se impormos o confinamento? Quantas pessoas receberão uma nutrição deficiente? Quantas ficarão sem escola ou perderão seus trabalhos? Quantas serão golpeadas ou assassinadas por seus parceiros?’”.

Ter contado com as ferramentas científicas para enfrentar o coronavírus foi só uma parte da equação, porque as medidas como o distanciamento social geraram um alto custo econômico e emocional. Isso foi um peso adicional à carga que a pandemia colocou sobre os ombros dos dirigentes mundiais.

“Lamentavelmente, muitos políticos não estiveram à altura desta responsabilidade”, avaliou Harari.

“Por exemplo, os presidentes populistas dos Estados Unidos e do Brasil minimizaram o perigo, negaram-se a fazer caso dos especialistas e, ao contrário, impulsionaram teorias conspiratórias”, ilustrou. “Não criaram um plano de ação federal sensato e sabotaram as tentativas das autoridades dos estados e os municípios de deter a pandemia. O descaso e a irresponsabilidade dos governos de Trump e Bolsonaro provocaram centenas de milhares de mortes evitáveis”.

A principal diferença entre o êxito científico e o fracasso político destacada pelo autor de Sapiens é a cooperação. Enquanto os cientistas do mundo compartilharam informação livremente e trabalharam juntos em benefício da pesquisa em geral, “os políticos não conseguiram criar uma aliança internacional contra o vírus e acordar um plano global”.

Assim, os primeiros meses de 2020 foram parecidos com “olhar um acidente em câmera lenta”: a onda de contágios e mortes avançou da Ásia para a Europa e depois para a América, sem que uma coordenação global de lideranças impedisse que a catástrofe tragasse o mundo.

“As duas principais potências, os Estados Unidos e a China, se acusaram mutuamente de ocultar informação vital, disseminar desinformação e teorias conspiratórias e inclusive de ter espalhado o vírus deliberadamente”, recordou. A batalha simbólica deixou baixas em campos materiais tão sensíveis como o equipamento médico. “Não foram feitos esforços sérios para reunir todos os recursos disponíveis, otimizar a produção global e garantir uma distribuição equitativa dos suprimentos”

Em particular, destacou Harari, “o nacionalismo da vacina cria um novo tipo de desigualdade global entre os países que podem vacinar para a sua população e os que não”. Isso representa um destilado do erro político, porque revela que os dirigentes globais não compreendem um fato elementar da pandemia: “Enquanto o vírus continuar se espalhando em qualquer lugar, nenhum país pode se sentir seguro de verdade. Suponhamos que Israel e o Reino Unido tenham êxito e erradiquem o vírus dentro de suas fronteiras, mas que o vírus continue se espalhando entre centenas de milhões de pessoas na Índia, Brasil ou África do Sul, uma nova mutação de algum remoto povoado brasileiro pode tornar a vacina ineficaz e provocar uma nova onda de infecções”.

O perigo de uma ditadura digital

Apesar do papel positivo que as tecnologias da informação desempenharam durante a pandemia, têm também um lado B: “A digitalização e a vigilância colocam em risco nossa privacidade e aparam o caminho para o surgimento de regimes totalitários sem precedentes”, alertou o pensador israelense. “Em 2020, a vigilância em massa se tornou ao mesmo tempo mais legitimada e mais comum. Combater a epidemia é importante, mas merece a destruição de nossa liberdade no processo? Corresponde aos políticos, mais do que aos engenheiros, encontrar o equilíbrio adequado entre a vigilância útil e os pesadelos distópicos”.

Propôs algumas regras básicas que, mesmo em tempos de praga, são eficazes para proteger os indivíduos do que chamou de “ditaduras digitais”. A primeira: os dados pessoais que possam ser coletados, em particular sobre o que acontece dentro do corpo de alguém, deveriam ser utilizados para ajudar essa pessoa e não para a manipular, controlar ou causar dano.

“Meu médico pessoal conhece muitas coisas extremamente privadas sobre mim. Não considero inconveniente que seja assim, pois confio que ele utiliza esta informação em meu benefício”, deu como exemplo Harari. “Meu médico não deveria vender estes dados para nenhuma corporação ou partido político. O mesmo deveria acontecer com qualquer tipo de ‘autoridade de vigilância da pandemia’ que pudéssemos estabelecer”.

A segunda regra básica é que a vigilância sempre deveria ser de mão dupla. “Se a vigilância é apenas de cima para baixo, é o melhor caminho para a ditadura. Sendo assim, quando aumenta a vigilância aos indivíduos, simultaneamente, deveria aumentar a vigilância ao governo e as grandes corporações”, argumentou.

“Se o governo diz que é muito complicado estabelecer um modelo de monitoramento semelhante em plena pandemia, não acredite. Se não é muito complicado começar a monitorar o que você faz, não é muito complicado começar a monitorar o que o governo faz”. Isso inclui, apresentou como exemplo, a necessidade de transparência na distribuição de fundos públicos para atenuar a crise.

Nunca se deve permitir a concentração de muitos dados em um só lugar, continuou. “Nem durante a pandemia, nem quando terminar”, ressaltou. “Um monopólio de dados é a fórmula para uma ditadura. Se coletamos dados biométricos das pessoas para deter a pandemia, isto deveria ser feito mediante uma autoridade sanitária independente, não mediante a polícia. E os dados obtidos deveriam ser mantidos separados de outros espaços de informação dos ministérios governamentais e as grandes corporações”.

Harari se adiantou às críticas: isso poderia gerar redundâncias e ineficácia, reconheceu, mas manter um pouco de ineficácia lhe pareceu um preço razoável a ser pago para impedir a ascensão de uma ditadura digital.

As três lições deixadas por um ano de pandemia

Assim como ainda se fala da gripe de 1918 e é estudada como pandemia, o caso da Covid-10 irá reverberar nas conversas e na pesquisa dos anos futuros. Mas mesmo tão cedo, com o coronavírus ainda galopante, e independente das diferenças nas perspectivas políticas, a experiência de 2020 já deixou três lições importantes, concluiu o artigo do pensador.

“Primeiro, devemos salvaguardar nossa infraestrutura digital”, afirmou. “Foi nossa salvação durante esta pandemia, mas em breve pode ser fonte de um desastre ainda pior”.

Como isso seria possível? Em sua opinião, quando são feitas estimativas para prever ou se preparar para a pandemia que vier, é preciso pensar em um ataque à rede tecnológica global, porque é “a principal candidata” a ser “o próximo Covid-19”.

A informatização permitiu que a humanidade resistisse em diferentes planos ao ataque material do SARS-CoV-2, mas “também nos tornou mais vulneráveis ao malware e a ciberguerra”, explicou. “O coronavírus levou vários meses para se espalhar pelo mundo e infectar milhões de pessoas. Nossa infraestrutura digital pode entrar em colapso em apenas um dia”.

Em segundo lugar – continuou –, “cada país deveria investir mais em seu sistema de saúde pública”. Pode parecer uma verdade muito trivial, reconheceu, “mas os políticos e os eleitores, às vezes, conseguem ignorar as lições mais óbvias”.

Por último, seria conveniente estabelecer “um poderoso sistema global para monitorar e prevenir as pandemias”, acrescentou. “Na guerra imemorial entre os humanos e os patógenos, o front percorre o corpo de todos os seres humanos. Se esta linha for cruzada em qualquer lugar do planeta, todos estamos em perigo”. Daí que “ainda que as pessoas mais ricas, nos países mais desenvolvidos, têm um interesse pessoal em proteger as pessoas mais pobres, nos países menos desenvolvidos. Se um novo vírus passa de um morcego a um humano em um vilarejo pobre de uma selva remota, em poucos dias esse vírus pode dar uma volta por Wall Street”.

A estrutura desnuda de um sistema antivírus como esse existe, formada pela Organização Mundial da Saúde – OMS e várias outras instituições sanitárias globais. Mas seus recursos econômicos são comparáveis ao seu impacto político: mais do que escassos. “Temos que dar a este sistema algo de peso políticos e muito mais dinheiro, de tal maneira que não dependa completamente dos caprichos de dirigentes autocomplacentes”, escreveu, aludindo a vários casos que foram evidenciados em 2020.

Não cabe a eles, porque são especialistas e não autoridades eleitas pelo voto popular, tomar decisões sobre políticas de saúde. “Isso deveria continuar sendo prerrogativa dos políticos”, concluiu. “Mas algum tipo de autoridade sanitária global independentes seria a plataforma ideal para reunir informação médica, monitorar riscos potenciais, fazer advertências e dirigir a pesquisa e o desenvolvimento”.

 

FONTE: INSTITUTO HUMANITAS UNISINOS

A importância do acordo coletivo de trabalho

IMAGEM: SINTRACOOP

 

O crescimento da modalidade do home office, o chamado teletrabalho, durante a pandemia de Covid-19, repercute nas negociações coletivas, mostra o Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos). Trata-se da Nota Técnica 255.

Em 2020, 13,7% das negociações mencionavam este tipo de trabalho. Em 2019, só 1,2% tratou do tema.

Os setores com a maior proporção de negociações sobre o assunto são os serviços (17,5%) e o comércio (16,3%). Na indústria, o percentual foi menor (9,7%), devido às características das atividades do segmento. Entre os rurais, as cláusulas sobre home office representaram apenas 1,1%.

 

FONTE: DIAP

 

IMAGEM: PEDAGOGIA AO PÉ DA LETRA

A organização inclui em seu relatório anual recomendações para seis países da região, com vistas à recuperação econômica esperada para 2021.

 

Para curar as feridas econômicas que a pandemia continua a infligir, os governos da América Latina terão que gastar melhor e melhorar a educação, de acordo com recomendações emitidas pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) em seu relatório anual Going for Growth 2021 publicado em Quarta-feira. Embora cada país tenha suas fraquezas e dificuldades particulares, esses são dois denominadores comuns. “A recessão corre o risco de deixar cicatrizes econômicas e sociais consideráveis”, acrescentam especialistas da instituição sediada em Paris.

Argentina, México, Colômbia, Brasil, Chile e Costa Rica devem garantir que os gastos sejam bem direcionados para fornecer uma verdadeira rede de segurança social e melhorar o desempenho de suas instituições. Também elevar o nível educacional e as oportunidades de trabalho de suas populações. Os Estados Unidos deveriam fazer o mesmo com sua população latina e outras minorias.

 

"A recuperação pós-pandemia cria novas oportunidades para estabelecer as bases para uma recuperação vibrante", diz o relatório de 244 páginas. "Com o apoio macroeconômico contínuo, os formuladores de políticas podem moldar a recuperação para impulsionar o crescimento, aumentar a resiliência e a inclusão e aumentar a sustentabilidade ambiental." O relatório oferece recomendações específicas para 46 países, seis deles na América Latina.

Os programas de apoio social à pandemia , como o do Brasil e do Chile, têm sido bons, reconhece o relatório. Esto pudiera hacerse en la forma de programas de seguros de desempleo permanentes y de ayudas a las mujeres, sobre todo en Argentina y México, países en donde la pandemia agravó las desigualdades de género y en donde existe un potencial grande para incorporar a las mujeres al mercado laboral.

Na Argentina, a OCDE recomenda que "melhorar as condições para as empresas prosperarem, competirem e criarem empregos de qualidade, ao mesmo tempo que investem em habilidades e oportunidades para as pessoas, deve ocupar um lugar de destaque na agenda política". As dificuldades econômicas desencadeadas pela crise macroeconômica em El Paso foram exacerbadas pela pandemia, tornando clara a necessidade de proteção social mais eficaz, mesmo para famílias vulneráveis ​​cujo sustento está fora do mercado de trabalho formal.

O clima de negócios também deve melhorar no México, disse a instituição, já que o setor privado é uma fonte de recursos muito necessários. “A pandemia destacou como aumentos recentes na pobreza, desigualdades e diferenças de gênero exacerbam um desafio de longa data para aumentar a inclusão. A elevação do padrão de vida exigirá o aumento do crescimento da produtividade, melhorando o clima de negócios, inclusive lutando contra a corrupção e melhorando as habilidades da população ”, resumiu a OCDE.

Em todos os países latino-americanos incluídos no relatório se toca o ponto da qualificação da população economicamente ativa, que é deficiente. Para ter acesso a melhores oportunidades de emprego, os governos devem investir em programas de treinamento e educação que aumentem o nível de qualificação de suas populações. A OCDE recomendou que o Chile, por exemplo, “fortaleça as políticas ativas do mercado de trabalho e realize uma revisão abrangente das políticas de treinamento que ajudaria a enfrentar os desafios da transformação digital e garantir que todos os trabalhadores, especialmente os mais vulneráveis, tenham acesso às oportunidades certas de reciclagem e encontrar empregos de boa qualidade ”.

Nos seis países da região, assim como nos Estados Unidos, a qualidade da educação varia muito de acordo com a geografia, grupos étnicos e níveis de renda. A organização, portanto, recomendou que os governos investissem em seus sistemas de forma a nivelar a qualidade da educação. “A pandemia corre o risco de agravar as desigualdades existentes entre grupos sociais, étnicos e raciais”, escrevem os técnicos da OCDE sobre o gigante norte-americano, citando os latinos daquele país entre os afetados .

"O Executivo [dos EUA] amorteceu o impacto sobre as famílias vulneráveis, especialmente fornecendo transferências de dinheiro e expandindo os benefícios de desemprego", diz o relatório sobre o pacote de estímulo econômico histórico que incluiu cheques para toda a população. “No entanto, uma prioridade política chave deve ser continuar a melhorar as oportunidades para os mais vulneráveis. Indo além do apoio imediato, a melhoria da educação, do treinamento e do investimento em infraestrutura verde contribuiria para um crescimento mais sustentável, resiliente e equitativo ”.

O gasto em si não é garantia de investimento eficiente. Como exemplo, a OCDE fala sobre a Costa Rica, um país que gasta mais com educação em comparação com seus pares, mas ainda apresenta resultados relativamente baixos no teste de habilidades do PISA . “Para alcançar uma recuperação forte e inclusiva, a principal prioridade da política deve ser impulsionar a criação de empregos formais, com reformas que vão desde a remoção de barreiras à entrada de empresas e concorrência, à melhoria da qualidade do emprego. Educação e formação”, diz o relatório .

De transferências diretas a uma "verdadeira rede de segurança social"

A Colômbia enfrenta uma situação semelhante. A pandemia provavelmente levará a uma maior informalidade, desigualdade e pobreza, revertendo anos de melhoria, diz o relatório. “A educação básica e profissional de baixa qualidade, muitas vezes desconectada das necessidades do mercado de trabalho, grandes lacunas de conectividade e grandes desigualdades regionais devem ser abordadas para lidar com a informalidade e impulsionar o crescimento e o emprego no médio prazo”.

Brasil e Chile reagiram ao declínio de suas economias implementando programas de transferência direta para famílias e indivíduos que perderam seus empregos devido ao confinamento. Agora, o desafio para esses governos será direcionar bem esses gastos. “Transferências condicionais de dinheiro bem direcionadas poderiam ser expandidas e se tornar uma verdadeira rede de segurança social, acelerando a provisão de benefícios em caso de demissão e uma aposentadoria mais gradual para fortalecer os incentivos à procura de emprego”, apontam economistas da OCDE sobre o Brasil. “Isso deve ser baseado em experiências com benefícios de emergência temporários relacionados à pandemia para trabalhadores informais, que respondem por um terço dos empregos e não são cobertos por esquemas de seguro-desemprego”.

FONTE: EL PAÍS

IMAGEM: AGÊNCIA BRASIL/EBC

 

No limiar entre o emprego e o desemprego, vínculo de trabalho precário é utilizado por 15% da indústria, segundo levantamento da CNI

 Levantamento realizado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), que ouviu 523 empresas do setor, mostra que 15% já empregaram trabalhadores no regime intermitente de trabalho. Trata-se de uma modalidade de contratação, criada pela “reforma” trabalhista do governo Temer, na qual o empregado não tem nem jornada, nem salário fixos. Esse tipo de vínculo, inclusive, é alvo de ações no Supremo Tribunal Federal (STF) que contestam a sua constitucionalidade.

As empresas justificam a utilização do trabalho intermitente por causa das instabilidades surgidas em função da pandemia. Com incertezas com relação à demanda e à possibilidade de interrupção da produção devido à falta de insumos, o vínculo precário se encaixaria melhor a esse cenário.

Mas para os trabalhadores, segundo o Dieese, esse modelo de contratação está longe de ser ideal. “O trabalhador não tem segurança alguma. Você não sabe qual vai ser sua jornada, nem quanto vai receber. Você pode ficar contratado e passar o mês inteiro sem ser chamado para trabalhar”, explica o supervisor do escritório do Dieese em São Paulo, Victor Pagani, em entrevista a Glauco Faria, no Jornal Brasil Atual desta terça-feira (13).

“Além disso, o trabalhador não tem garantido sequer o piso da categoria, podendo receber menos do que está convencionado coletivamente. Pode inclusive receber menos que um salário mínimo. Nesse caso, o tempo em que ele está contratado não é sequer considerado como tempo de contribuição para fins previdenciários”, acrescentou.

Tiro no pé

Nota técnica divulgada pelo Dieese no final do ano passado revelou que 22% dos trabalhadores intermitentes não tiveram nenhum rendimento ao longo de 2019. Além disso, o rendimento médio dessa modalidade foi de R$ 637, valor equivalente a cerca de 64% do salário mínimo oficial.  O especialista do Dieese alerta que, no médio e longo prazo, esse tipo de precarização pode se voltar contra às próprias empresas. Com redução na massa salarial, a capacidade de consumo das famílias fica ainda mais comprometida.

“Essa questão da redução do custo, que as empresas sempre colocam como prioridade, pode até fazer sentido para uma empresa individualmente. Mas para o conjunto das empresas, se todas fizerem o mesmo, isso se reflete no enfraquecimento do mercado de consumo”, comentou Pagani.

Insegurança

Contestado juridicamente, esse vínculo precário também afeta a segurança e a saúde do trabalhador. Caso ele adoeça, contaminado pela covid-19, por exemplo, o trabalhador pode não receber pelos dias que ficar afastado, mesmo apresentando atestado. Se tiver mais de um vínculo empregatício nessa mesma modalidade, as responsabilidades dos empregadores ficam ainda mais confusas.

FONTE: REDE BRASIL ATUAL

 

Trabalho escravo

IMAGEM: MINISTÉRIO PÚBLICO DO TRABALHO/DIVULGAÇÃO

 

Fiscais do Ministério Público do Trabalho (MPT) e do grupo especial de fiscalização móvel do Ministério da Economia resgataram 22 trabalhadores em condições análogas à escravidão, em Ituverava, interior de São Paulo. Os migrantes foram recrutados no Estado do Maranhão para trabalhar no plantio de cana-de-açúcar em fazendas da região. A operação, iniciada no último dia 8, com apoio da Polícia Rodoviária Federal, foi encerrada nesta terça-feira, 13, quando os trabalhadores receberam as verbas a que tinham direito e embarcaram para casa.

Conforme o MPT, os canavieiros foram trazidos no início de março, de forma irregular, em transporte clandestino, e ainda foram vítimas de falsas promessas. O empregador direto era um “gato”, como são conhecidos os empreiteiros de mão de obra para o trabalho na cana, e prometeu diária de R$ 120. Os trabalhadores, no entanto, só receberam R$ 70, com o desconto do custo da passagem de ida e até dos colchões dos alojamentos.

Na inspeção da moradia, foram encontradas situações degradantes, com os 22 rurais aglomerados em local sem ventilação, sem cama e armário para todos e com alguns dormindo no chão. O conforto e a higiene da casa, localizada no distrito de São Benedito da Cachoeirinha, eram precários. Foi constatada a falta de equipamentos de proteção individual, de galões de água e de marmita que, conforme a legislação, devem ser fornecidos pelo empregador sem custo para o empregado.

Em audiência com o MPT, os empregadores, que não tiveram os nomes divulgados, se comprometeram a pagar de forma imediata as verbas rescisórias e as indenizações individuais, além de custear o traslado dos migrantes de volta ao Maranhão, incluindo a alimentação. Os empregadores serão multados pelo grupo de trabalho do ministério em valores ainda não definidos. Os autos serão enviados ao Ministério Público Federal para apurar eventual conduta criminosa dos envolvidos – crimes de redução de pessoas a condições análogas às de escravos (artigo 149 do Código Penal) e aliciamento de trabalhadores (artigo 207).

FONTE: ESTADÃO CONTEÚDO

 

Desemprego; Carteira de trabalho; Empregos

IMAGEM: (Amanda Perobelli/Reuters)

 

Num momento em que o país tem registrado números diários de mortes por covid-19 que ultrapassam 4 mil e diversos Estados e municípios reforçam medidas de distanciamento social, na tentativa de conter a propagação do vírus, as duas principais estatísticas do mercado de trabalho brasileiro apresentam problemas, apontam economistas.

O Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), levantamento sobre o mercado de trabalho formal divulgado mensalmente pelo Ministério da Economia, passou por uma mudança de metodologia em 2020, que tornou impossível a comparação dos dados recentes com a série histórica mais longa.

Além disso, o saldo positivo de 400 mil vagas com carteira assinada em fevereiro deste ano, mês com menor número de dias, feriado de Carnaval, queda na produção industrial e em que a pandemia já dava sinais de piora, acendeu um sinal de alerta para os analistas, de que o Caged está bastante descolado do desempenho da atividade econômica.

Com relação à Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) Contínua, pesquisa amostral produzida pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), que revela a taxa oficial de desemprego do país, um estudo do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) divulgado em março apontou que a coleta por telefone em meio à pandemia aumentou o índice de não resposta, levando a uma subestimação do emprego formal.

O IBGE não quis comentar o estudo do Ipea sobre a Pnad Contínua, já o Ministério da Economia reiterou a confiabilidade nos dados do Novo Caged e disse que os fortes saldos positivos podem ser resultado do BEm (Benefício Emergencial de Manutenção do Emprego e da Renda), programa que permitiu a redução de jornadas e salários e suspensão de contrato dos trabalhadores formais em meio à pandemia.

Falta de dados confiáveis prejudica políticas públicas

Segundo economistas, a falta de estatísticas precisas sobre o mercado de trabalho dificulta a elaboração de políticas públicas em resposta ao desemprego.

Além disso, sem dados precisos sobre o nível de ociosidade da economia, os analistas têm dificuldade para projetar a inflação e os juros futuros no país e o Banco Central tem problemas para calibrar a política monetária - uma taxa básica de juros mal calibrada pode afetar negativamente o desempenho da atividade econômica.

"Estamos às cegas, sem saber com exatidão o que se passa no mercado de trabalho", afirma Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados.

Para Vale, os problemas são sintomas de um governo que não entende a necessidade de boas estatísticas para elaboração de políticas públicas, o que ficou evidente, por exemplo, no corte de mais de 90% na verba para realização do Censo demográfico este ano.

Na semana passada, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) voltou a criticar as estatísticas de desemprego do IBGE.

"Estamos criando empregos formais, e bastante, mês a mês, mas tem aumentado o desemprego por causa dessa metodologia do IBGE, que atendia ao governo da época. Esse tipo de metodologia, no meu entender é o tipo errado. Vou sofrer críticas do IBGE, mas eles podem mudar a metodologia", declarou em entrevista à CNN Brasil na última quinta-feira (08/04).

As estatísticas de emprego do IBGE seguem metodologia internacional, a partir das recomendações da OIT (Organização Internacional do Trabalho).

Mudança de metodologia no Caged

Esse hiato, bem no início dos efeitos da pandemia no Brasil, aconteceu devido a uma mudança na metodologia de coleta dos dados.

Antes, a prestação de contas pelas empresas ao Ministério da Economia era feita por um sistema próprio do Caged. Com a mudança, ela passou a ser feita através do eSocial (Sistema de Escrituração Fiscal Digital das Obrigações Fiscais, Previdenciárias e Trabalhistas).

Após a alteração, o Ministério da Economia identificou um problema de subnotificação dos desligamentos, o que poderia inflar artificialmente o saldo de empregos - que é calculado pela diferença entre o número de admitidos e desligados a cada mês.

A pasta diz que o problema foi solucionado com uso de dados do sistema Empregador WEB, utilizado para solicitação de seguro-desemprego de trabalhadores demitidos.

A nova metodologia, no entanto, também mudou o universo de trabalhadores abrangido pelo Caged. No Novo Caged, os trabalhadores temporários agora são de preenchimento obrigatório pelas empresas e não mais opcional, como ocorria até dezembro de 2019.

Além disso, segundo nota técnica publicada pelo Ministério da Economia, categorias que antes não eram consideradas como emprego formal passaram a entrar na conta, como os bolsistas.

Ministério induz público ao erro

Diante dessas mudanças, os economistas alertam que o Ministério da Economia induz o público ao erro ao divulgar os resultados do Novo Caged como "recordes históricos" ou "o melhor resultado para o mês em 30 anos". Isso porque a nova série não é igual à anterior e, com isso, a comparação no horizonte mais longo está errada.

"Quando você muda a forma de medir uma série, ela não pode mais ser comparada com a que era medida de uma forma diferente anteriormente", explica Daniel Duque, pesquisador do Ibre-FGV (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas).

"Você está comparando banana com laranja, aí gera essas hipérboles", reforça Luciano Sobral, economista-chefe da NEO Investimentos. "Se você se deixar levar pelo que o ministério está tentando vender como a situação do mercado de trabalho, tem uma impressão errada da economia."

Procurado, o Ministério da Economia defendeu que é possível sim, fazer a comparação.

"A mudança do sistema de envio de dados não impede dizer que um mês foi melhor ou o pior, desde que sejam feitas as devidas ressalvas metodológicas, como sempre fizemos. Em todas as coletivas e materiais enviados para a imprensa sempre fizemos observações de se tratar de uma nova série, iniciada em janeiro de 2020", afirmou a pasta, por e-mail.

Caged deixou de ter aderência com a atividade

Os economistas destacam ainda que outro problema do Novo Caged é que ele deixou de ter aderência com a atividade econômica.

No passado, o indicador evoluía de forma muito próxima ao desempenho da economia segundo o IBC-Br (Índice de Atividade Econômica do Banco Central), considerado uma espécie de "prévia do PIB", divulgado mensalmente pela autoridade monetária. Ou seja, quando a economia ia bem, cresciam as contratações, e quando ia mal, predominavam as demissões.

No período recente, essa aderência se perdeu.

"O Caged começou a chamar a atenção desde o ano passado, com os números do segundo semestre excessivamente fortes, para uma recuperação que ainda estava muito lenta", observa Vale. "Especialmente alguns segmentos de serviços estavam muito longe de ter uma recuperação efetiva e tivemos números de Caged semelhantes a momentos de crescimento muito forte da economia."

"O dado de fevereiro especialmente - 400 mil (empregos gerados), num mês mais curto, que tem feriado e com a pandemia já muito avançada, pensar em grandes contratações num mês que os empresários olhavam à frente e viam toda a situação de saúde pública tirar potencial de demanda e de crescimento - não parecia ser um mês para ter um saldo tão forte", avalia o economista-chefe da MB Associados. "Então isso causa um certo espanto."

"Desde o último trimestre do ano passado, estamos observando altas muito fortes do Caged. Nunca teve altas tão elevadas na série histórica toda, nem em 2010 [ano em que o PIB cresceu 7,5%]", observa Duque, do Ibre-FGV.

"Nesse sentido, o dado de fevereiro não me surpreendeu, mas nem eu, nem ninguém, conseguiu ainda explicar esse fenômeno, então continua sendo estranho", completa o pesquisador.

Procurado, o Ministério da Economia creditou a discrepância ao programa de redução de jornadas e salários que vigorou entre abril e dezembro de 2020.

"Realizamos o maior programa de preservação de empregos da história do país. O Benefício Emergencial de Manutenção do Emprego e da Renda (BEm), que vai diretamente no mercado formal", afirmou a pasta, em resposta a pedido de posicionamento feito pela BBC News Brasil.

"Esse programa atingiu em torno de 30% do mercado de trabalho formal celetista (de acordo com a CLT - Consolidação das Leis do Trabalho) do país. Atualmente, segundo a Dataprev, mais de 3 milhões de trabalhadores seguem protegidos, uma vez que a lei prevê a garantia provisória do emprego para os beneficiários do programa. Com isso, há uma melhoria nas admissões e uma estagnação das demissões, devido ao efeito do BEm, aumentando, assim, o saldo", completou o ministério.

IBGE teve problemas na coleta da Pnad por telefone

Embora o Caged tenha sido alvo de mais críticas pelos economistas no período recente, a Pnad Contínua também enfrenta problemas que podem estar prejudicando a aderência dos dados à realidade do mercado de trabalho.

Um estudo realizado pelos pesquisadores Carlos Henrique Corseuil e Felipe Russo, do Ipea, mostrou que a mudança da forma de coleta da pesquisa, de presencial para por telefone, devido à pandemia, provocou uma forte queda no número de entrevistados que seriam ouvidos pela Pnad pela primeira vez.

Na pesquisa, cada entrevistado é ouvido cinco vezes ao longo dos meses, para acompanhar a evolução de sua situação de emprego e renda.

Os pesquisadores constataram que essa não resposta não era uniforme entre os diferentes tipos de vínculo empregatício, e que aqueles que de fato responderam ao IBGE tinham menor probabilidade de ter emprego formal.

"O IBGE, para compensar as não entrevistas, acaba aumentando o peso de quem foi entrevistado. Então, com esse procedimento, ele acabou dando mais peso a esse grupo que foi efetivamente ouvido, que era um grupo que tinha probabilidade maior de responder que não estava ocupado num emprego formal", explica Corseuil.

Diante disso, os técnicos do Ipea estimam que o número de empregados com carteira assinada pode ter sido subestimado em cerca de 1,5 milhão no segundo trimestre de 2020 e em 1,2 milhão no terceiro trimestre daquele ano. Mas, segundo os pesquisadores, esse problema tende a ser mitigado com o passar do tempo e o aperfeiçoamento da coleta por telefone pelo IBGE.

"É preciso deixar claro que (a queda no número de entrevistas em pesquisas feitas por telefone) foi um problema comum a todos os países que fazem pesquisas domiciliares baseadas em cadastros de endereço", destaca Corseuil.

"E que esse problema aconteceu na Pnad porque foi negado ao IBGE o acesso aos telefones", lembra o técnico do Ipea.

Em 17 abril de 2020, uma medida provisória permitiu ao IBGE ter acesso aos dados cadastrais dos clientes das companhias telefônicas. No entanto, uma liminar bloqueou o acesso do instituto a essas informações logo em 24 de abril, e foi referendada pelo STF (Supremo Tribunal Federal) em 7 de maio.

Procurado, o IBGE não quis comentar os resultados da pesquisa do Ipea.

A BBC News Brasil também questionou o instituto sobre por que a Pnad Covid-19, pesquisa criada no ano passado para mensurar os efeitos da pandemia sobre o mercado de trabalho e a saúde dos brasileiros, foi descontinuada em dezembro de 2020.

O IBGE respondeu reencaminhando nota publicada em outubro do ano passado que informava que "o encerramento do ciclo da pesquisa está relacionado ao planejamento inicial de pesquisa de pulso de caráter temporário e à redução da sobrecarga dos informantes".

"Por se tratar de pesquisa realizada por meio de um painel fixo de domicílios, os mesmos informantes são selecionados para responder ao questionário todos os meses, o que naturalmente implica desgaste dos entrevistados", explicou o IBGE, à época.

Técnicos do IBGE afirmam ainda que o instituto estava usando na coleta da Pnad Covid-19 funcionários contratados como temporários para o Censo. Como o instituto acreditava que o levantamento demográfico decenal seria realizado em 2021, após ser adiado em 2020 devido à pandemia, esses trabalhadores temporários teriam que retornar às tarefas do Censo.

Por que a falta de dados confiáveis é um problema

Assim, no pior momento da pandemia, o Brasil não conta mais com a Pnad Covid-19 e seus dois principais indicadores permanentes do mercado de trabalho - o Caged e a Pnad Contínua - têm problemas que dificultam a interpretação dos dados pelos analistas.

"O impacto é geral, porque não se tem ideia de fato do que está acontecendo no mercado de trabalho e que políticas precisariam ser feitas para mitigar o desemprego", diz Vale, da MB Associados.

"Se você passa a impressão de que o emprego está super bom, está super forte, que o saldo de vagas está super tranquilo, você diminui a preocupação, por exemplo, com a população mais pobre que está desempregada", afirma o economista.

Sobral, da NEO Investimentos, explica que a incerteza também prejudica o trabalho do Banco Central no ajuste da taxa básica de juros.

"Do ponto de vista do mercado, o principal elemento para se mensurar a capacidade ociosa da economia é o mercado de trabalho", explica Sobral. "O mercado de trabalho estando mais ou menos aquecido tem pesos diferentes na inflação e a inflação afeta a projeção de juros."

"Então estamos no escuro com relação ao tamanho dessa folga no mercado de trabalho e o quanto isso vai impactar a inflação futura. Nós no mercado temos esse problema e o Banco Central também tem esse problema, então é um nível a mais de dificuldade para analisar o que está acontecendo no mercado ou formular a política monetária e a política econômica."

Para Vale, o problema é reflexo de um descaso mais amplo do governo atual com a produção de dados estatísticos.

"Me parece que há um descaso geral com as estatísticas", avalia Vale. "Precisaria haver um esforço maior do governo, um cuidado maior em apresentar estatísticas bem feitas, porque quem vai pagar o preço desse descaso somos nós mesmos."

"Sem informações corretas, há dificuldade de fazer políticas públicas adequadas. Mas esse é um governo que não é muito fã de políticas públicas", diz Vale.

"É um governo que gosta de viver no mundo que eles criam e não no mundo real, acho que essa é a questão de fundo", acrescenta Sobral.

FONTE: BBC

Uruguai aposta no êxito do controle da pandemia como chamariz para retomada do turismo

IMAGEM: EITAN ABRAMOVICH/AFP/JC

 

O Uruguai, considerado durante a maior parte de 2020 um exemplo na luta contra a covid-19, registra agora a maior quantidade de novos casos diários per capita do mundo, segundo um balanço da AFP.

O país registrou cerca de 1.370 novos casos diários por 100.000 habitantes nos últimos 14 dias, de longe a maior taxa do mundo, já que nenhum outro país superou os 1.000 contágios diários por 100.000 habitantes neste período, segundo estatísticas da AFP, realizadas com base em dados oficiais.

O governo reportou na segunda 71 mortes por covid, a maior cifra desde o início da emergência sanitária, em março de 2020.

No total, o país registra 147.173 contágios e 1.533 óbitos pelo novo coronavírus.

O aumento sustentado de contágios põe em risco o atendimento em hospitais públicos e privados em todo o país, onde já há 53% dos leitos de terapia intensiva ocupados por infectados com a covid-19.

Segundo boletim da Sociedade Uruguaia de Medicina Intensiva, até a segunda-feira havia 77% de ocupação total nas unidades de terapia intensiva.

Outrora um exemplo regional por sua bem sucedida gestão da pandemia, o país vive seu pior momento sanitário.

Mas o presidente Luis Lacalle Pou se mostrou relutante em endurecer as medidas existentes para restringir a mobilidade, argumentando que seu governo não acredita em “um Estado policial”.

O país, que nunca decretou quarentena obrigatória, suspendeu as aulas presenciais e os espetáculos públicos, e mantém fechados alguns escritórios públicos não essenciais. Mas estabelecimentos comerciais de todos os setores, incluindo bares e restaurantes, permanecem abertos, com muita mobilidade nas ruas.

No entanto, a administração se mostra confiante em um programa de vacinação que avança em um ritmo bom.

Quase 26% da população já recebeu a primeira dose das vacinas da CoronaVac ou da Pfizer, e 6% a segunda, desde que teve início a campanha de imunização, em 1º de março.

FONTE: AFP

Montagem: Linton Publio

Os sindicatos não são obsoletos, e precisamos recuperá-los

 

THE NEW YORK TIMES/PAULO KRUGMAN
 

Os ativistas pró-trabalhadores esperavam que a votação sobre a sindicalização no armazém da Amazon em Bessemer, no Alabama, fosse um ponto de inflexão, uma inversão na tendência de décadas de declínio dos sindicatos. O que a votação mostrou, porém, foi a persistente eficácia das táticas usadas repetidamente pelos empregadores para derrotar os esforços de organização.

Mas os defensores dos sindicatos não devem desistir. O ambiente político que deu espaço livre aos patrões antissindicais pode estar mudando —o declínio da sindicalização foi acima de tudo político, e não uma consequência necessária de uma economia em transformação. E os EUA precisam de um renascimento sindical se quisermos ter alguma esperança de inverter a espiral de desigualdade.

Comecemos falando sobre por que a afiliação aos sindicatos diminuiu, em primeiro lugar, e por que ainda é possível esperar um renascimento.

Os Estados Unidos já tiveram um poderoso movimento trabalhista. A afiliação aos sindicatos cresceu muito entre 1934 e o fim da Segunda Guerra Mundial. Nos anos 1950, aproximadamente um terço dos trabalhadores não agrícolas eram sindicalizados. Ainda em 1980 os sindicatos representavam aproximadamente um quarto da força de trabalho. E os sindicatos fortes tinham um grande impacto mesmo sobre os trabalhadores não sindicalizados, definindo normas de pagamento e colocando os empregadores antissindicais sob aviso de que deviam tratar seus empregados relativamente bem ou enfrentariam o movimento organizado.

 

Mas a participação nos sindicatos despencou, especialmente no setor privado, durante os anos 1980, e continuou caindo desde então.

Por que isso aconteceu? Muitas vezes encontro afirmativas de que o declínio foi inevitável diante da automação e da globalização —basicamente, que os sindicatos não podiam conseguir salários mais altos quando os patrões tinham a opção de substituir trabalhadores arrogantes por robôs ou mudar a produção para o exterior. Mas a evidência sugere outra coisa.

Apesar de falarmos muito sobre robôs hoje em dia, o progresso tecnológico foi na verdade mais rápido durante a maré alta da sindicalização do que nos últimos anos; a produção por trabalhador-hora aumentou duas vezes mais depressa de 1947 a 1973 do que depois de 2007. Isso não impediu os sindicatos de terem uma grande influência nos salários.

O impacto da globalização também é frequentemente exagerado. Cerca de três quartos do emprego nos países avançados são em atividades que não podem ser transferidas para outros países, proporção que não mudou muito com o tempo.

Na verdade, a Amazon é um caso típico: enquanto muitos dos produtos que se podem comprar online são importados, a posição de mercado da Amazon repousa sobre um enorme sistema de armazéns —como o de Bessemer— que empregam centenas de milhares de trabalhadores. E esses armazéns não podem ser transferidos para o exterior; seu objetivo é manter os estoques próximos dos grandes mercados, para que a Amazon possa entregar as coisas em poucos dias.

Se o setor de serviços fosse sindicalizado, os empregadores não achariam fácil substituir trabalhadores empoderados por robôs ou produção offshore. De fato, outras economias avançadas como a Dinamarca, que são tão globalizadas quanto nós, ainda têm forças de trabalho amplamente sindicalizadas; até o Canadá mantém um movimento sindical muito maior que o nosso.

Por que os sindicatos são tão fracos nos EUA? Enquanto os detalhes são discutíveis, a política americana deu uma virada rápida contra os sindicatos sob Ronald Reagan, incentivando os empregadores a jogar duro contra os sindicalistas. Isso significou que, enquanto o centro de gravidade da economia americana mudava da manufatura para os serviços, os trabalhadores nos setores em crescimento ficaram amplamente desorganizados.

E esse declínio na sindicalização teve consequências terríveis. Em seu momento áureo, os sindicatos foram uma força poderosa a favor da igualdade; sua influência reduziu a desigualdade geral dos salários e também reduziu as disparidades salariais associadas a diferentes níveis de educação e até à raça. O aumento da afiliação aos sindicatos parece ter sido um fator chave na "Grande Compressão", a rápida redução da desigualdade que ocorreu entre meados dos anos 1930 e 1945, transformando os EUA em um país de classe média.

Inversamente, o declínio dos sindicatos teve um grande papel no aumento da desigualdade e na estagnação dos salários. E os trabalhadores perderam o poder de negociação conforme políticas antitruste permitiram que as corporações ganhassem cada vez mais poder de mercado.

Mais uma coisa: não precisamos de sindicatos fortes só para nivelar o campo de jogo econômico.

Embora seja animador ver o governo Biden propor uma reversão dos presentes dados pelo governo Trump às empresas, ainda é verdade que o dinheiro grande tem enorme influência política. Não é simplesmente uma questão de contribuições de campanha. Os interesses corporativos também conseguem definir os termos do debate por meio de sua capacidade de oferecer empregos lucrativos a ex-políticos e autoridades, apoio generoso a grupos de pensadores amigos, etc.

A força de trabalho organizada costumava oferecer um contrapeso à influência corporativa. Os sindicatos nunca estiveram em posição de se equiparar ao poder do dólar corporativo, mas podiam oferecer às pessoas poder —a capacidade de mobilizar seus membros e seus amigos e vizinhos de um modo que as corporações não podiam. E mais que nunca precisamos desse poder compensador.

Então esperemos que os ativistas trabalhistas tratem Bessemer como uma experiência de aprendizado, e não um motivo de desespero. Ainda precisamos recuperar os sindicatos fortes.

Traduzido originalmente do inglês por Luiz Roberto M. Gonçalves

 

FONTES: THE NEW YORK TIMES/FOLHA DE S.PAULO

Eletricista, Contramestre, Moço de Máquinas e mais vagas abertas pela Log-In Logística hoje, 07 de abril

IMAGEM: CLICK PETRÓLEO E GÁS

O varejo descobre a cabotagem e as vantagens da multimodalidade

Quando o assunto é logística, a cabotagem é um modal que tem ganhado força e vem crescendo de maneira sustentada a dois dígitos ao ano na última década. Apesar dos efeitos da pandemia, cerca de 1 milhão de TEUs (unidade equivalente a um contêiner de 20 mil pés) foram transportados por navios porta-contêineres, em 2020, de acordo com a Associação Brasileira de Armadores de Cabotagem – ABAC, ligando o país de ponta a ponta, por meio dos portos brasileiros.

De certa forma, este crescimento contínuo é reflexo de uma aposta no modal que se iniciou no final dos anos 90, com objetivo de implementar no mercado um serviço de cabotagem porta a porta. A novidade chegou para estimular a competição e criar uma alternativa ao transporte rodoviário. Desde então, duas décadas se passaram e o modal tornou-se uma realidade. Atualmente, mais de 20 navios operam rotas regulares em toda a costa brasileira em operações que vão muito além do transporte propriamente dito e complementado por serviços adicionais como armazenagem de carga, transporte terrestre e gestão logística.

Os avanços estruturais e tecnológicos do setor atraíram os olhares do mercado varejista, que passou a embarcar de forma relevante na cabotagem contribuindo significativamente para o crescimento do modal. Quando cito o varejo, me refiro às grandes redes de supermercados, atacadistas, magazines, home centers, etc. Isto significa que muitos produtos que temos em casa certamente passaram pelos contêineres transportados ao longo da costa brasileira. Vale ressaltar que este é um segmento altamente exigente e que demanda um elevado nível de atendimento, o que faz com que as empresas precisem estar constantemente atualizadas para suprir esta nova demanda.

Atenta a este cenário, a Log-In desenvolveu, no ano passado, a plataforma digital Log-Aí, em que o cliente tem acesso seguro e completo à gestão de todas as cargas transportadas, desde o pedido até o comprovante de entrega. O desenvolvimento da plataforma contou com a participação de alguns clientes que apontaram suas dificuldades durante o processo logístico e deram sugestões de melhorias. Um deles foi uma gigante brasileira do segmento de Atacado e Varejo. Iniciativas assim possibilitam ampliar as oportunidades dentro deste importante mercado e entregar um nível de serviço cada vez mais exigido pelos clientes.

As empresas que investem em inovação podem sentir a assertividade destas decisões ao receberem retornos positivos em relação aos resultados. Somente no ano passado, 130 novos clientes testaram o transporte multimodal pela primeira vez com a Log-In. Destas empresas, grande parte está inserida no setor varejista onde fazemos a entrega da mercadoria em um centro de distribuição indicado pelo cliente, ou mesmo diretamente em uma loja onde os produtos vão direto para as gôndolas.

Não tenho dúvidas em afirmar que o cliente que substituir parcialmente sua logística pela cabotagem passará a obter ganhos diretos e indiretos relevantes em seu custo logístico total. Isso representa uma economia que vai desde o frete até o seguro da carga, passando por redução significativa dos níveis de avarias e eliminando boa parte da necessidade de logística reversa.

Quem também se beneficia com a adoção da cabotagem é o meio ambiente. O transporte marítimo é um modal extremamente sustentável com níveis de emissão de CO² três vezes inferior ao tradicional transporte rodoviário. Ou seja, a emissão de gases poluentes chega a ser 300% menor se comparado ao transporte dessa mesma carga transportada por caminhões. As vantagens aparecem também no consumo de combustível, o bunker, que pode ser até oito vezes menor se realizarmos a mesma comparação com o diesel utilizado pelos caminhões, segundo a Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina (FIESC).

As empresas com responsabilidade socioambiental, que prezam a sustentabilidade de seus negócios e possuem estratégias bem definidas de ESG (do inglês Environmental, Social and Governance) - aspectos que regem sua conduta nas áreas ambiental, social e de governança -, certamente optarão pela cabotagem como forma de atingirem suas metas estabelecidas no programa. A adoção de um modelo mais sustentável para a cadeia logística é uma mudança cultural e urgente para as empresas.

Maurício Alvarenga é diretor comercial da Log-In Logística Intermodal

FONTE: PORTOS&NAVIOS

Ever Given

GETTY IMAGES

 

Parecia um final feliz.

O sucesso da manobra que acabou destravando o cargueiro Ever Given do Canal de Suez no final de março foi festejado por todo o mundo. A história do bloqueio de uma das rotas mais importantes para o comércio internacional havia chegado ao fim.

Mas, na realidade, o problema está longe de ser resolvido.

  • A razão? O Egito decidiu que não vai liberar o navio até que uma multa US$ 1 bilhão (R$ 5,7 bilhões) seja paga como compensação pelos danos gerados durante a semana de bloqueio. O cargueiro de quase 400 metros está atualmente ancorado no chamado Grande Lago Amargo, um lago salgado situado entre o sul e o norte do Canal de Suez.
  • "O navio permanecerá aqui até que uma investigação seja concluída e a indenização seja paga", disse Osama Rabie, presidente da Autoridade do Canal de Suez (ACS), à televisão estatal egípcia.

"Esperamos um acordo rápido", acrescentou. "No momento em que concordarem com a compensação, o navio poderá se mover."

Em relação ao valor da indenização, Rabie disse no início de abril que "serão calculados os danos e perdas e quanto as máquinas de dragagem consumiram".

"A estimativa vai chegar a US $1 bilhão ou talvez um pouco mais. É um direito que o Egito tem", disse.

Esse valor seria calculado com base na perda de taxas de uso do canal perdidas depois que diversos outros navios desviaram a rota, dando a volta pela África do Sul. Além disso, há os danos causados à hidrovia durante a drenagem, os esforços de retirada do cargueiro e os custos com equipamentos e materiais.

Shoei Kisen, empresa japonesa dona da Ever Given, disse que não recebeu até o momento nenhuma reclamação oficial ou ação legal pelo bloqueio causado pela embarcação, mas reconheceu que está em "negociações" com a autoridade do canal.

Por que o navio encalhou?

As declarações de Osama Rabie surgem no meio de uma investigação que visa obter mais pistas sobre como o Ever Given acabou encalhado na margem do canal.

A causa inicial foi atribuída a ventos fortes, mas agora investigadores devem verificar se houve erros técnicos ou humanos, teoria que é defendida pelo presidente da ACS.

 

"O canal nunca foi fechado devido ao mau tempo", disse Rabie. Ele também negou que o enorme tamanho do navio fosse a causa, já que "cargueiros ainda maiores" cruzam aquele trecho.

Por ser uma das principais artérias econômicas do mundo - por onde passa mais de 12% do comércio total -, a estagnação do Canal de Suez trouxe uma série de consequências econômicas que acabaram afetando o bolso de milhões de pessoas.

Quase dois milhões de barris de petróleo e cerca de 8% do gás natural liquefeito passam pelo Canal de Suez todos os dias.

Isso teve um forte impacto no preço desses produtos.

Além disso, estima-se que mais de 360 ​​embarcações foram paralisadas no canal, entre cargueiros com contêineres e petroleiros.

Quanto custou o bloqueio do Canal de Suez?

Segundo Osama Rabie, o encalhe do cargueiro teve grande impacto nessa rota comercial, custando entre US$ 14 e US $15 milhões (cerca de R$ 80 milhões) a cada dia de bloqueio.

O canal é uma importante fonte de receita para o Egito. Até antes da pandemia, o comércio que passava por ali contribuía com 2% do PIB do país segundo a agência de classificação de crédito Moody's.

FONTE: BBC