IMAGEM: ABC News: Steve Wang
As perspectivas para a produção e o comércio internacional de pescado são positivas, em meio à mudança nos hábitos alimentares das populações, sinaliza uma reunião internacional realizada pela FAO, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura.
Se produtores no Brasil se mostram apreensivos com o aumento de certas importações, de outro lado tem destaque o poderio da China, que responde por quase metade da atividade pesqueira em todo o mundo. A produção mundial de pesca e aquicultura (criação planejada e controlada) alcançou 235 milhões de toneladas em 2024, o maior nível já registrado, impulsionada sobretudo pela aquicultura.
A disponibilidade per capital global deve crescer modestamente, de 21,3 quilos em 2024 para 21,9 quilos em 2034. O pescado responde por 15% da disponibilidade mundial de proteína animal e é a principal fonte de proteína de origem animal para mais de 40% da população global. Em 2024, a aquicultura superou a pesca extrativista pela primeira vez na história, respondendo por 53% da produção global. Esse avanço deve continuar. As projeções da FAO indicam que a aquicultura responderá por 62% do total disponível para consumo humano até 2034. A Ásia domina o setor. A China, sozinha, responde por 56% da aquicultura mundial. Os cinco maiores países produtores (China, Índia, Indonésia, Vietnã e Bangladesh) concentram 82% do total global. Trata-se de uma concentração sem paralelo em qualquer outro segmento agropecuário mundial.
A China é a maior nação pesqueira do mundo em volume de capturas, graças também a acordos com dezenas de países. Com suas próprias águas costeiras esgotadas, Pequim construiu operações pesqueiras globalmente, utilizando quase 3 mil embarcações, do Oceano Índico ao Pacífico Sul e das costas da África às da América do Sul, segundo organizações não governamentais. A Oceana, ONG americana focada no setor pesqueiro, estima que as embarcações de pesca da China podem ter realizado 44% da atividade pesqueira global em determinados anos. Para isso, teriam pescado nas águas de mais de 90 países, através de acordos. Certos analistas veem espaço, porém, para atividade ''extra'', visto a falta de controle de Marinha de certos países.
A Oceana contabilizou, no verão de 2020, operações de quase 300 embarcações chinesas nas proximidades das Galápagos, logo fora da zona econômica exclusiva do Equador — as 200 milhas náuticas ao largo de seu território nas quais o país detém direitos sobre os recursos naturais, segundo a Convenção da ONU sobre o Direito do Mar. O comércio internacional de pescado movimentou US$ 186 bilhões por ano recentemente, cifra comparável à do comércio mundial de carnes terrestres somadas. O comércio continuará a crescer, mas em ritmo mais lento. A China ocupa uma posição singular no comércio: é o maior exportador global, com 11% do valor, e, simultaneamente, o segundo maior importador, com 12%. Para países exportadores como o Brasil, a China pode ser vista tanto como concorrente quanto como cliente.
Em Brasília, a Abipesca (Associação Brasileira de Processadores de Frutos do Mar) observa que o Brasil importa 30% do pescado que consome, incluindo salmão e bacalhau que não produz. O problema, segundo Jairo Grund, diretor-executivo da entidade, está na importação de certas espécies produzidas localmente. Sem o mercado da União Europeia aberto e tendo conseguido recentemente uma lista de exceção nos Estados Unidos, o setor se diz, ao mesmo tempo, “sob a ameaça de importação de produtos que ferem a cadeia nacional, como a tilápia do Vietnã”. Jairo diz que, nos primeiros seis meses deste ano, as importações de tilápia procedentes do Vietnã já superaram o volume das exportações. E o produto está na iminência de chegar também da China, quando forem concluídos os protocolos sanitários de aquicultura que estão em negociação. “Estamos num momento de bastante apreensão e é importante a defesa da produção nacional, com possibilidade de cotas [limites quantitativos de importação]'', afirma. ''Não queremos gerar desgaste no comércio, mas sim uma importação de maneira controlada para não depredar a indústria”. Jairo Gund, diretor-executivo da Abipesca.
Por outro lado, o país fez recentemente um acordo para a exportação de pescado de pesca extrativa — lagosta, corvina, atum, pargos etc. — para a China. Gund diz que, se tivesse o mercado europeu reaberto, em três a cinco anos poderia quase triplicar a produção de camarão, por exemplo. No relatório da FAO, o Brasil pouco aparece na área pesqueira. A América Latina e o Caribe ocupam a terceira posição no ranking global de exportações, com 1pouco mais de 15% do valor total. Equador e Chile figuram entre os cinco maiores exportadores mundiais do setor, com cerca de 5% do valor global cada. O Peru é o quarto maior produtor mundial de pesca extrativista, com 6% do total global, e o terceiro maior produtor de pesca extrativista marinha. A anchova do Peru e do Chile, o camarão de cultivo do Equador e o salmão de cultivo do Chile representam, juntos, 37% da produção total de pescado da região.
FONTE: VALOR
