Brasil pode ter mais de 25 milhões de desempregados ao fim da ...

Incapaz de conter o avanço da pandemia, o governo se distancia também de programas que promovam a geração de vagas de trabalho. Além de já ser o segundo país com mais vítimas da Covid-19, o Brasil pode se tornar o recordista em demissões.

Marcado pela pandemia do novo coronavírus, 2020 pode entrar para a história do Brasil também como o ano em que os empregos desapareceram. Nenhuma das inúmeras crises econômicas que o País enfrentou teve tamanho impacto sobre a redução de vagas de trabalho. Pelo menos nos últimos 120 anos. Isso porque, desde 1900, as circunstâncias que impuseram restrições à atividade econômica sempre impactaram menos a empregabilidade se comparadas aos efeitos da crise atual. Até a década de 1950, o processo de urbanização das cidades garantia postos de trabalho para pessoas de todas as escolaridades, enquanto o campo provia o sustento dos que não se aventuravam nos grandes centros.

Nas três décadas seguintes, o crescimento do emprego acompanhou a expansão industrial e a entrada do Brasil na rota do comércio globalizado. Ainda que houvesse um sensível atraso no desenvolvimento de certos setores industriais brasileiros em relação aos países mais ricos, foi a indústria que absorveu um imenso contingente de trabalhadores. Desde os anos 1990, a taxa de desemprego nunca superou 15%.

Com estabilização da moeda, o controle do câmbio e a abertura comercial, novos perfis de vagas e demandas garantiram taxas de empregabilidade relativamente estáveis. Tudo isso parece estar prestes a sucumbir diante de um inimigo desconhecido. Um vírus que, se não mata, pode desempregar em massa.

A expectativa do próprio ministro da Economia, Paulo Guedes, é que, até o fim do ano, cerca de 40 milhões de pessoas estejam desempregadas ou subutilizadas. O número representaria quase 30% do contingente de trabalhadores ativos no País. Ele se somaria aos outros quase 8 milhões de pessoas com idade e capacidade profissional que desistiram de buscar emprego, os desalentados. Um retrato do que está por vir foi indicado em maio quando, segundo o IBGE, os pedidos de seguro desemprego saltaram 75%, somando mais de 500 mil. Até o fim do ano, segundo o Ministério da Economia, é possível que esse número dobre, podendo triplicar dependendo da extensão da crise. E poderia levar até cinco anos para voltarmos ao patamar de 2019, se mantido o ritmo de geração de vagas pré-pandemia.

Na avaliação de Cláudio Aragão, doutor em ciências econômicas e ex-diretor do Instituto de Pesquisa Aplicada (Ipea) para mercado de trabalho, é possível que 40% dos jovens não tenham emprego no final de 2020. “Há um descompasso entre as políticas de emprego e os jovens, porque elas são voltadas ao estímulo do empresário e não do trabalhador”, afirma. O Brasil lida agora com uma situação que envolve boa parte dos trabalhadores capacitados. Para o historiador econômico Nilo Abreu, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a queda no rendimento do trabalhador será inevitável: “Haverá milhares de pessoas com diploma, experiência e currículo em busca de vagas”.

 

INVESTIMENTO PÚBLICO 

Para evitar o pior seria necessário um grande esforço articulado entre os entes federativos, Três Poderes e iniciativa privada. Seria necessário investimento público massivo, programas emergenciais de transferência de renda, retomada de obras de infraestrutura, requalificação profissional e reforço escolar. Tudo isso para que as bases da pirâmide econômica consigam sustentar o topo.

Porém, com tantas demandas dependendo do poder público, as chances de se viabilizar algo desse porte é ínfima, não apenas porque o governo federal parece pouco disposto a realizar medidas dessa natureza, mas porque a necessidade de integração com os poderes estaduais e municipais torna difícil a coordenação de políticas públicas em um país continental e polarizado como o Brasil. A própria ineficácia demonstrada até agora no combate ao coronovírus expôs essa fragilidade.

Renda básica sai do plano das ideias

Se em um passado não muito distante a transferência de renda por meio do Bolsa Família parecia um atentado aos liberais por “dar o peixe e não ensinar a pescar”, em tempos de pandemia e na iminência de faltar mercado consumidor fez com que uma proposta conhecida por ser de esquerda ganhasse a simpatia até dos liberais mais ferrenhos. A renda básica de cidadania, que no Brasil é defendida por Eduardo Suplicy, um expoente da esquerda progressista, voltou a ganhar espaço nas discussões por ser uma das alternativas de manter a economia rodando minimamente enquanto a atividade está parada. “Tudo indica que vou viver para ver a Renda Básica ser implementada”, disse o atual vereador de São Paulo.

Por meio de um auxílio bancado pelo governo, as pessoas em situação de vulnerabilidade social teriam direito de receber uma ajuda que a manteria ativa no mercado consumidor. O sociólogo, filiado ao DEM e ex-deputado federal por Minas Gerais Emerson Moreira é um dos que defende o uso da renda. “A economia cresceu entre 2006 e 2014 com a inclusão de mais de 15 milhões de brasileiros que se bancarizaram e se tornaram economicamente ativos”, disse. Ele, que outrora foi crítico à medida de renda universal, hoje repensa o posicionamento.

É preciso pensar em um capitalismo mais moderno, em que o Estado não seja dono dos meios de produção, mas garanta que a população tenha acesso aos produtos”. A medida que também seria bem recebida por um empresariado cheio de incertezas sobre o futuro pode estar mais perto do que se imagina, uma vez que o Congresso Nacional, depois de estender o auxílio emergencial, estuda formas de garantir recursos para os brasileiros vulneráveis à crises de modo mais perene. Mesmo tendo no petista um notório defensor da medida, a primeira grande cidade do País a adotar um programa similar foi Campinas (SP), no começo dos anos 90, por decisão de José Roberto Magalhães Teixeira, então prefeito da cidade e um dos fundadores do PSDB.

FONTE: ISTOÉDINHEIRO